"Meteoritos calcários"

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Num país onde o número de meteoritos conservados em museus e universidades não ultrapassa a meia dúzia (o Museu de História Natural de Paris tem 2400, o de Londres 3500 e o da Smithsonian, de Washington, 7000), pasme-se, existem mais de 30 no Museu Municipal de Porto de Mós e, pasme--se ainda mais, todos eles "meteoritos calcários", um tipo que não existe em mais parte nenhuma do mundo, nem em todo o sistema solar.

Expostos entre 2 e 27 de Fevereiro último, numa organização da responsabilidade do pelouro da Cultura da autarquia, com o apoio da respectiva câmara municipal, sobre estes achados foi produzido um folheto informativo, amplamente divulgado, do qual me parece oportuno transcrever algumas frases, entre outras, igualmente de pasmar

"(...) mais de 30 meteoritos calcários 'cerebroiformes' dos muitos que caíram em forma de chuva (...)"; "(...) um bloco errático que caiu sob a forma de um grande novelo de pó cósmico (como se fosse cimento em pó), solidificado rapidamente logo que tocou na água do mar que lhe deu a forma actual (...)"; "(...) os medalhões micas calcinadas ou 'biotites' (...) que compõem os granitos de Arouca (...) acoplados durante as explosões no cosmos quando ainda em pó ou massa ígnea (...)".

Nunca em tão pouco espaço se escreveu tanto disparate. Os "meteoritos calcários", em questão, não são mais do que nódulos siliciosos, muito característicos dos calcários do Jurássico das serras de Aire e do Sicó.

Acontece que esta exposição teve direito a divulgação em jornais regionais e nacionais e, até, na RTP, com a agravante de assim se convidarem as escolas a visitarem o dito museu.

É confrangedora a ignorância subjacente a este triste e lamentável acontecimento, a dos autarcas, a dos jornalistas que o noticiaram acriticamente, a dos professores que ali efectuaram visitas com os seus alunos e não reagiram a este erro científico e, ainda, a do director deste museu, um octogenário autodidacta, o único merecedor de compreensão, de desculpa e, até, de respeito. Este senhor aprendeu o que a nossa sociedade lhe permitiu que aprendesse, sem escola, sozinho, nos livros que conseguiu arranjar.

Informado desta situação por dois porto-mosenses, José Teixeira e António José Teixeira, entendi ser meu dever para com o público em geral e, em particular, para as escolas, denunciar este atentado à inteligência, alertar para uma situação lesiva dos mais elementares princípios científicos e pedagógicos e pedir a quem de direito que diga basta! e ponha fim a esta leviandade.

Em defesa do director do museu municipal que, no emaranhado das confusões em que se fundamenta o seu saber no âmbito das Ciências da Terra e do Espaço, há uma percepção, que eu diria poética, de uma realidade que um profissional não descreveria tão bem "(...) da serra de Aire, onde se podem observar inúmeras camadas de lamas petrificadas, parecendo cada uma ser uma folha de um enorme livro natural composto pela própria natureza, ao longo dos tempos (...)". Que interessado aluno e bom profissional este senhor teria sido se tivesse tido essa oportunidade.

Ainda não há um mês faleceu, subitamente, o único especialista português em meteoritos, Fernando Monteiro, do Departamento de Geologia da Faculdade de Ciências de Lisboa, quando ultimava a sua esplêndida tese de doutoramento. Tentar pôr cobro a esta fantasia é, também, a homenagem que me sinto no dever de prestar a este meu jovem colega e amigo.

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